Onde estão os vândalos?

Durante muitas manifestações pela redução da passagem, pelo passe-livre, por um sistema de transporte público e de qualidade, o que se ouviu de muita gente, cujo olhar indignado passava por aqueles seres desprezíveis, era simplesemente “Vândalos!”, e talvez alguma sonoplastia vocal indicando desapontamento com a juventude desse país.

Essas pessoas deveriam ler o que segue, e quebrar a cara. Na verdade elas teriam essa possibilidade sem precisar entrar aqui, se a “grande” mídia não sustentasse as decisões políticas dessa cidade, como um cachorrinho subserviente, expondo não somente lixeiras explodidas (por bombinhas espalhadas pela polícia), brigas entre manifestantes e policiais, ônibus quebrado e outras marcas “negativas” do movimento, mas também mostrasse um jogo de futebol entre a população e os empresários do transporte, encenação realizada como manifestação, música nos ônibus, com artistas apoiando a causa e ainda alegrando um pouco a espera eterna dos passageiros, um bloco de carnaval cujo tema vai justamente nesse sentido com o nome “O Bonde dos Catraqueiros”, entre tantas outras coisas preparadas com um toque artístico, criativo, enriquecedor para quem elabora e para quem observa, podendo se inteirar de um assunto que lhe diz respeito, mas sem precisar ver policiais pela volta e ter medo (dos policiais, naturalmente …).

Onde eu queria chegar é justamente nas formas que o movimento tem de articular isso. Não vou precisar me enrolar muito, vou apenas colar aqui o e-mail que recebi esta manhã pela lista cujo título é “Arte contra a tarifa”. Nesse e-mail já está o chamado para participar das ações, ajudar no preparo, trazer idéias… Coisas, vejam só, que em nada estão relacionadas com aquele vandalismo balbuciado pelas cabecinhas adubadas de TV e jornal impresso dessa cidade. Não da forma que eles entendem.

Segue o e-mail/convite:

Ata da reunião comissão de arte e cultura,comunicação

Cerca de 10 pessoas estiveram na reunião que aconteceu no CFH (UFSC) dia 16 de Março.
Avaliação
Última atividade da comissão que ocorreu no Carnaval com o desfile do Bonde dos Catraqueiras foi considerada positiva.Foi constatado também que não fizemos nenhuma atividade na quinta do dia 10 e que, por proximidade da data,nenhuma aconteceria ontem dia 17.
Encaminhamentos

Comunicação

Panfleto
O esboço do panfleto requisitado pela comissão de mobilização ficou ao encargo do João, que já o fez o e mandou para a lista da arte e cultura,comunicação. Ficará sujeito durante todo dia de hoje (sexta,18) para sugestões,”pitacos” alterações,etc.
Cruzadinha
Faremos palavras cruzadas contra a tarifa.No mesmo modelo das comuns em jornais,só que com perguntas relacionadas ao transporte.
Arte e Cultura

Quintas atuantes
A partir da quinta que vem, 24, voltamos a fazer intervenções, inicialmente nos ônibus. Como estamos com falta de desinibidos, Livia e Nya assumiram o compromisso de entrar em contato com professores de teatro conhecidos, para que ocorra uma pequena “oficina” sobre interpretação.
Jogo de futebol,senhor e senhora Transol e Similares
Criação de pequenos roteiros, direções para as manifestações artísticas pois a maioria das pessoas tem dificuldade com improvisação. Qualquer um pode e deve contribuir adaptando ou até mesmo escrevendo um guião.
Show do Busão/Entrevista
Quiz de perguntas para que os passageiros conheçam seus direitos, saibam das ilegalidades na tarifação do transporte público desta cidade e tomem conhecimento de outras propostas relacionadas à mobilidade urbana.
Próximas Atividades
Serão discutidas na reunião deste sábado,dia 19, na concha acústica(ponto de encontro) às três da tarde.
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Tragam suas ideias, compareçam e divulguem!

Sobre fotos, pipas e projetos sociais.

Experiência no projeto Patrimônio Caeira

Eu já tinha divulgado, agora confirmo que fui e valeu a pena! Não que eu tivesse alguma dúvida do quanto eu poderia aproveitar de um evento como o ocorrido ontem na Caeira do Saco dos Limões. Se quiser saber com mais detalhes do que eu estou falando basta correr essa página mais pra baixo e ver o post anterior, ou simplesmente clicar aqui.

Há muitos anos eu alimento a vontade de me envolver mais ativamente em algum projeto social. Primeiro a vontade veio desse jeito mesmo, “algum projeto social”, sem saber nem ao menos de fato como isso funciona. Não tenho ainda sequer um décimo da bagagem que eu acho necessária para se levar adiante esse tipo de trabalho, mas tenho uma vontade que não é só minha, e que por si só já serve de alimento suficiente no caminho de aquisição dos nove décimos restantes, na sua grande maioria só possíveis de se adquirir a partir de uma prática intensa, ou seja, trabalhando de fato na área social, na comunidade.

Ontem tive um bom exemplo de pessoas trabalhando na comunidade, da comunidade trabalhando no seu próprio contexto, extraindo das suas vidas a matéria prima para um trabalho diferente do habitual (aquele que se mede somente por dinheiro/hora), um trabalho artístico. Nesse caso específico o trabalho fotográfico, artesanal, literário, mencionando aqui apenas parte do que ficou exposto no tempo que eu estive por lá. Com certeza podemos chamar de arte também o processo que levou à isso tudo.

O tema principal foi a Pipa. O Pira (Rafael Vilela), fotógrafo e professor do curso de fotografia que está acontecendo no projeto Patrimônio Caeira, me contou como a coisa surgiu naturalmente. Ele entrou no projeto em Outubro do ano passado, começou a organizar a oficina dentro de uma visão menos técnica e mais voltada para a linguagem visual, dando referências e aproveitando o que surgia da vivência dos moradores. Em uma saída para fotografar pelo bairro, junto com os alunos, notou a quantidade de fotos que estes fizeram das pipas que eram empinadas por toda parte. Esse foi o momento em que o tema ganhou força e alavancou a exposição que eu pude prestigiar ontem. Uma série de fotografias dos próprios moradores, penduradas em fios com rabiolas, cujo tema, pipa, estava também presente nas poesias e pequenos textos, ligados ao tema não só pelo conteúdo, mas por estarem escritas em papeis de seda colados em bambus. Pipas confeccionadas artesanalmente, que tiveram de ser sorteadas entre as crianças no final do dia.

Os textos também foram desenvolvidos a partir de uma oficina. Não quero agora me complicar e tentar lembrar o nome de todas as pessoas envolvidas. O mérito é de muitos, da Nani, professora de teatro que estava animando o dia junto com o Téo, músico paulista que mal conseguia deixar o violão de lado, das crianças, que balançavam o vento com suas pipas, da comunidade que passava e parava para olhar as fotos penduradas em uma pequena pracinha, tão colorida naquele domingo de sol…

Vou deixar o subtítulo do blog falar mais alto e não me importar muito com a coisa burocrática, tendo que citar o nome e função de cada pessoa que trabalha no projeto, ou mesmo dando as referências institucionais, formas de apoio, etc.

Me interessa muito mais pensar que uma senhorinha, educadamente chamada pelo nome na voz do Pira, parou naquela praça para olhar as fotos, e pôde perguntar àquele rapaz universitário se o salão da igreja estava aberto, e este tinha a informação certa para dar, respondendo gentilmente. Uma relação bonita, e nada tão pessimista nesse mundo pode me convencer de que isso não foi verdadeiro, essencialmente humano. Assim como o foi a descoberta do tema da exposição para a comunidade.

Isso tudo que eu escrevi está grosseiramente retratando o que na verdade não é muito passível de descrição. Eu poderia dar detalhes ainda das conversas que tive, tanto com o Pira quanto com a Nani, com o Téo, com um menino pequeno e marrento que adorou a pequena roda de percussão corporal que montamos por alguns momentos, sendo que esse mesmo menino estava batucando em um escorregador com muita afinidade enquanto cantávamos um samba clássico ao som do violão. Tudo isso compõe o que eu vivi nessa tarde de domingo. Na verdade eu tenho vontade de pedir àquelas pessoas todas que escrevam tudo o que foi aquele dia, com todas as suas causas e consequências. Uma das consequências eu já estou sentindo, que é a aproximação àquela fração. Faltam ainda nove décimos…

E mais fotos:

Empipandopipa

 

pipa e poesia

Pira, entre a máquina e as fotos. Na exposição também estavam as suas fotos "Cabeças-de-pipa", uma série que deve circular ainda por outros lados..


Exposição cultural na comunidade do Caeira

Vou só dar a introdução do evento, porque a notícia completa eu copiei do site da FCC. Fui pessoalmente convidado por um grande amigo, autor das fotos e muito gente fina, o Rafael Vilela, ou simplesmente Pira. O convite surgiu de uma conversa que tivemos no final do ano passado, quando o Pira me contou do projeto na Caieira. Prefiro dar mais detalhes depois que já tiver ido lá, conversado com outras pessoas envolvidas na idéia, uma referência para o que pode vir a ser trabalhado na Casa da Música, república que volto a administrar a partir do mês que vem no Saco Grande.

Segue a notícia, que pode ser traduzida em convite.

Lucas fica em casa para brincar de pipa

A cultura da pipa será tema da próxima exposição fotográfica do projeto Patrimônio Caeira. No próximo domingo, dia 20, a comunidade do Caeira no Bairro Saco dos Limões, em Florianópolis, terá a chance de mais uma vez se ver retratada nos trabalhos apresentados na pracinha ao lado da quadra da Consulado do Samba.
O projeto foi aprovado pelo Edital Elizabete Anderle, de estimulo à cultura – promoção do governo do Estado, através da Fundação Catarinense de Cultura. O objetivo registrar a memória cultural da comunidade do Caeira através de fotografias, textos, encenações e material virtual.
As fotos serão expostas às 10h da manhã e permanecerão até o anoitecer do dia. A partir das 14h, alunos da oficina de teatro se apresentarão com performances baseadas no texto do morador e poeta Ivaldo Lopes.
A prática de soltar pipa ou pandorga sempre foi comum na localidade. Durante os meses de janeiro e fevereiro crianças, adolescentes e até mesmo adultos aproveitam o tempo livre das férias para observar o céu e as condições do vento para então levantar suas pipas a fim de disputar nas alturas o título de Melhor pipeiro do Caeira.
Rafael Vilela é professor da oficina de fotografia do projeto e diz que não teve como não aproveitar o colorido e o movimento das pandorgas, que se cruzam ao mínimo vento que bata, para realizar saídas fotográficas voltadas ao tema.
Entre as 25 imagens apresentadas no próximo domingo está uma série intitulada Cabeças-de-Pipa. Elas impressionam pelas cores do papel de seda posicionado na frente do rosto de cada Pipeiro. São jovens de várias idades, sotaques, gostos e visões de vida que na hora de soltar pipa só pensam em diversão como competição, ou vice-versa.
Crianças como Lucas Alberto Correia de 6 anos que deixou de ir ao primeiro dia de escola para soltar pipa com o irmão, Bruno, de 9 anos. De chinelo e latinha na mão, ele sobe as ruas íngremes do Morro do Caeira para achar o melhor ponto e empinar sua pipa verde e rosa.
FONTE: Carlos Silva, assessor de imprensa do projeto

A enxaqueca, o médico e o centro.

Pensei que ia chover, me armei com aquele guarda-chuva de dez reais comprado em Curitiba pouco antes de uma tormenta. Hoje não teve tormenta, nem sequer uma garoa. Eu pelo menos poderia estar feliz por ter um guarda-chuva bom pagando tão pouco. Mas o guarda-chuva não é bom, e está a poucas chuvas do lixo. Quando comprei nem pensei em pechinchar, como tinha feito outra vez em Floripa, pagando quinze no que seria vinte. O guarda-chuva de Floripa era melhor, ou talvez eu não tenha tido tempo suficiente para testá-lo, já que o perdi em poucas semanas.

Mas tudo bem, ir ao centro prevenido é sempre bom. Não por estar indo ao centro, só por estar prevenido mesmo. Tá certo, é sempre bom estar prevenido.

O fato é que eu nunca me senti tão desastrado por carregar um guarda-chuva. Não sei se era a enxaqueca… Ah, isso me leva ao ponto. Tenho enxaqueca há cerca de três anos, ou mais. Em 2009 tomei coragem e fui ao neurologista. Ele fez algumas perguntas, examinou por cima, me receitou uns remédios e pediu alguns exames. Isso era no final de 2009. No meio do ano seguinte fiz os exames, e hoje fui levar o resultado.

Nunca tomei os remédios que ele receitou. Não sou muito a favor de uma alopatia tão aleatória. A conclusão da minha visita de hoje foi que eu estava bem, e que qualquer coisa era só tomar os remédios que ele receitou. Não quero julgar o Doutor, eu não tenho cacife pra isso. Mas o fato é que eu mesmo tinha chegado à conclusão de que, segundo os exames, está tudo em ordem comigo, ou pelo menos com a minha cabeça. Isso aparece escrito no final de uma folha, dentro da pasta com as conclusões do exame, segundo o laboratório. O que o médico fez foi ler essa frase. Não checou as imagens, não parou um segundo pra procurar qualquer coisa além daquela frase estúpida: Estruturas encefálicas dentro dos limites da normalidade.

O pior de tudo é que o tal Doutor é muito legal, super simpático, um vozeirão de acordo com a sua figura grande, barba e cabelo brancos, aquele olhar de vô, tratamento muito gentil, brincalhão… Como eu seria capaz de virar pra cara dele e dizer: “Amigo, essa conclusão eu posso tirar sozinho, não preciso pagar ônibus caro e lotado, na hora do rush, tendo marcado a consulta há mais de um mês, carregando um guarda-chuva podre e hoje especialmente inútil, estando neste momento com enxaqueca, para ouvir da sua voz a frase que me impediu de vir aqui antes trazer este exame.”

Teria sido indelicado, além de inútil. Sem contar a minha incapacidade de tratar assim uma pessoa tão amável.

Mas o que fazer então? Bom, a minha enxaqueca de fato já diminuiu muito em intesidade e frequência, mas isso não tem nada a ver com aquele consultório bem desenhado. Eu fiz um tratamento que pode deixar muita gente em dúvida, mas que funcionou mais do que deveria, tendo em vista a minha incapacidade de mantê-lo fielmente.

Foi com o Seu Argeu, ou Ageu, ou simplesmete Índio. Na verdade ele tem muitos nomes. É um Senhor que vive com a família em Mirim Doce, em uma região mais perto de montanhas e florestas no interior de Santa Catarina. Não vou saber contar com detalhes o que ele faz, ou como faz. Posso dizer por cima que é uma pessoa bastante especial, já que consegue identificar nos outros muitas coisas, entre elas os problemas de saúde, e na maioria das vezes consegue tratá-las (se elas assim quiserem) com uma série de chás, preparados por ele e pela família. Esse senhor esteve muito tempo pesquisando plantas, e junto com a capacidade que tem de diagnosticar as doenças realiza tratamentos deveras eficazes. Posso dizer com toda a convicção que o Mateus e a Fernanda estão tendo êxito no tratamento da deficiência visual que ambos possuem, supostamente degenerativa. Vivo com eles há um ano, e trabalhamos juntos. Acompanho de perto o tratamento, e por indicação deles comecei o meu. Não consegui mantê-lo pela dificuldade de carregar sempre comigo uma grande variedade de chás, além da dieta que é necessária (não sendo isso o mais difícil). Mas os três meses em que tentei levar essa rotina à serio foram suficientes pra deixar a minha cabeça muito mais “leve”. De vez em quando ainda volta um pouco aquela dor chata perto das têmporas, mas sem comparação com a época em que acordar com enxaqueca significava um dia perdido.

Agora, o que dizer da comparação entre os doutores? O Seu Argeu é uma figura forte, que tem no olhar uma segurança amedrontadora, ainda mais quando trata de assumir a sua convicção em um deus católico, ordenando a todos os seus “pacientes” que agradeçam sobretudo à Deus. Não posso negar que isso me faz repensar, não a minha relação com a Igreja, mas com as possibilidades de re-ligação/religião, presentes em tantos contextos… Talvez às vezes seja bom simplesmente poder agradecer alguma coisa. Com certeza não aquela frase estúpida.


Barbatuques e a música desmistificada

Participei em Janeiro deste ano de uma oficina ministrada pelo Barba e pelo Maurício, ambos integrantes do Barbatuques. Entre os demais participantes havia desde flautistas, cantores e bateristas a professores de educação física, de dança, atores, e tantas outras pessoas sem um vínculo profissional com a música no sentido de execução ou criação da mesma.

Em um primeiro momento isso pode parecer preocupante, ainda mais nessa oficina onde o meu objetivo era desenvolver a capacidade de lidar com o meu corpo musicalmente, tendo já começado “informalmente” este processo ao longo de alguns anos curiosos. Não seria um entrave ter tantas pessoas “iniciantes” em música participando da oficina?

Barba, eu e demais particpantes da oficina durante apresentação de encerramento

Na verdade eu nem me coloquei estas questões no primeiro instante, só as estou usando agora como introdução para o texto. Eu já previa que essa mistura aconteceria, e na verdade até contava com ela para que a oficina fosse duplamente aproveitável.

Naturalmente eu desejava me desenvolver musicalmente, já tendo visto o trabalho que os Barbatuques apresentam nos seus shows e CDs, e essa musicalidade no corpo, diretamente, me fascina. Mas indo um pouco além do meu interesse pessoal, enquanto indivíduo que pretende se desenvolver, existe uma possibilidade que foi muito bem focada durante os exercícios na oficina – a desmistificação da música a partir da sua vivência no corpo.

Claro que eu não estou inventando nada, ou descobrindo coisas que já não estejam escritas e muito bem fundamentadas, apenas acho importante compartilhar essa experiência sob um olhar bem específico, como deve ser o de cada um que participou da oficina este ano, ou em outras ocasiões (os Barbatuques vivem ministrando oficinas pelo mundo afora, confira a agenda no site do grupo).

Eu estudo no curso de graduação em Teatro da UDESC/Florianópolis desde o começo do ano passado (2010), e mesmo antes já trabalhei com grupos de teatro, seja como ator ou como músico. Não tenho medo de que os meus colegas se sintam ofendidos quando digo que a grande maioria deles não entende nada de música (ou pelo menos assim afirma), a não ser pra dizer o que gosta, o que ouve, o que não gosta, ou o que abomina.. Na verdade alguns até têm voz bonita, e quando cantam não têm dificuldade para afinar, outros (ou os mesmos) conseguem manter um pulso com facilidade. Mas trate de tentar explicar com um vocabulário específico da música o que está acontecendo.. É provável que mesmo estes, que têm mais facilidade com afinação ou ritmo, tremam na base. Em raras ocasiões restam uns poucos que podem estar por dentro dos termos musicais.

Essa rejeição e às vezes até certo medo da música é um entrave na vida dessas pessoas. Muita coisa pode ser desenvolvida a partir da música, ou com um apoio direto da mesma. No caso específico de atores/diretores/produtores/professores, foco do curso de Teatro da UDESC, isso pode ser exemplificado de diferentes formas, entre elas: criação de personagem a partir da música, jogos de improvisação com base na música, pulso em cena, ritmo em cena, dinâmicas, criação de trilha sonora, paisagem sonora, percepção, escuta, jogos em sala de aula, trabalho corporal, coordenação, trabalho vocal, e vários etcéteras!

Não posso negar que já tivemos algum trabalho nesse sentido, principalmente nas aulas de técnicas corporais, quando fomos apresentados a teóricos como Dalcroze, uma importante referência no que diz respeito à música associada ao movimento, ou partindo deste e vice e versa. Porém falta ainda muito trabalho para que a música saia do seu “pedestal”, e uma das ferramentas que me soa mais promissoras para essa missão é o trabalho de percussão corporal. As possibilidades são tantas, e me pareceu tão clara a facilidade que ela proporciona para apropriação de alguns conceitos musicais que chega a ser impressionante. Ao final do primeiro dia de oficina em Curitiba já foi possível, a partir de um exercício, fazer uma criação coletiva muito interessante, onde cada pessoa, músico ou não, tomava parte e se manifestava musicalmente com o seu corpo.

Não quero menosprezar o trabalho de músicos que se dedicam plenamente ao estudo de harmonia, ritmo, técnicas específicas de cada instrumento e tudo o mais que daí deriva. Hoje mesmo estive no ensaio do Trio Karibu (apresentam dia 3 de Março no SESC Prainha) composto por três grandes amigos, estudiosos da música, que se dedicam a preparar trabalhos bem acabados, com arranjos que exigem tudo o que eles podem oferecer, e isso partindo de músicas autorais. Valorizo o trabalho deles, e muito, assim como o de tantos outros grupos e músicos.

O que eu vejo, e que já ficou evidente, é a necessidade de manter e reforçar essa proximidade entre os mundos, ainda mais quando tal proximidade é vantajosa para ambos os lados. A música no contexto teatral, o movimento corporal no contexto musical e, porque não, ambos em uma simbiose (como já existe por aí). Lembro de outra oficina onde o ministrante, Itaércio Rocha, na tentativa de colocar os participantes a par do que são as danças populares, puxava todos a não apenas dançar, mas também se olhar, sorrir, curtir, tocar, batucar, cantar, tudo ao mesmo. Segundo ele essa é a essência da cultura popular, uma não hierarquia entre as áreas, pelo contrário, uma fusão espontânea delas, uma fusão dos sentidos, das emoções.

Pra não deixar esse texto sem referências, já que eu falei anteriormente que existem muitos trabalhos a respeito dessa relação música-movimento, indico em seguida alguns links. Na verdade acabei encontrando um trabalho que trata justamente da questão que eu levantei, cujo título é: A Percussão Corporal como proposta de sensibilização musical para atores e estudantes de teatro. Essa dissertação de mestrado foi apresentada em 2007 na UNESP pelo pesquisador Alexandre Cintra Leite Rüger (vide Lattes). Existe uma versão digital que pode ser acessada neste link (clique aqui!) O autor inclusive faz referência direta aos Barbatuques, em cujas oficinas achou impulso para a sua pesquisa.

Outro trabalho que me chamou a atenção, mais diretamente focado na linguagem musical e no seu desenvolvimento a partir do trabalho corporal, eu encontrei na última revista publicada pela ABRACE (o que mostra a importância que o tema tem em um âmbito mais amplo de pesquisa em Teatro). Na verdade se trata de um ensaio escrito pelo pesquisador Ernani de Castro Maletta (vide Lattes). O título já diz muito – Uma proposta metodológica para a apropriação de conceitos do discurso musical na criação cênica. Ainda assim acho que vale a pena ler, pra pegar os detalhes, hehehe. Eis o link!

A partir desses autores, e de uma pesquisa mais minuciosa, é possível acessar diversos materiais relacionados.

Eu pretendia colocar aqui com mais detalhes os exercícios dos Barbatuques, mas vou deixar para um próximo post. Por enquanto fica a minha conclusão de que a experiência da oficina é ideal para ampliar os horizontes de quem acha importante relacionar as àreas, seja desmistificando ou aprofundando.

E mais alguns links:

O trabalho corporal nos processos de sensibilização musical

Corpoforma: uma estratégia para a apropriação e incorporação de partituras corporais pelo artista cênico

Paralelos entre ação teatral e discurso musical: o uso da música eletroacústica no teatro

O Ritmo, a Música e a Educação – Sobre Dalcroze

O MOVIMENTO CORPORAL NA EDUCAÇÃO MUSICAL: INFLUÊNCIAS DE ÉMILE JAQUES-DALCROZE EM TRABALHOS DE EDUCAÇÃO MUSICAL

ÉMILE JAQUES-DALCROZE: Sobre a experiência poética da Rítmica – uma expoxição em 9 quadros inacabados-

Dinâmicas corporais para a educação musical: a busca por uma experiência musicorporal – a partir da página 45

Não vou mentir dizendo que li tudo isso, mas garanto que já pesquei alguma coisa de cada um dos textos (de uns mais, de outros menos), e tenho todos já salvos no meu computador para seguir estudando.

Por hoje é isso. Boa noite.


Extra extra!

Blog renovado! E com possibilidades de se manter atualizado!

Estive em crise sobre o que fazer com um Blog. Na verdade a crise foi mais especificamente com este Blog, que eu inaugurei há alguns anos sem muitas perspectivas, apenas decidi testar o WordPress e postar coisas que me interessavam. Foi meio bobo da minha parte, pra não dizer ingênuo ou narcisista, já que o meu nome acabou estampado em um endereço na web…

Com o Blog do A Corda em Si foi outra história, ele é uma ferramenta para as necessidades do Grupo, divulgando o material, colocando informações complementares ao Myspace, vídeos, fotos, links relacionados, clipagem, contatos, etc. Em suma, é um Blog com objetivos bem claros.

Agora, um blog, cujo título é o meu nome… Não sei, mas me soou meio estranho depois de um tempo. Acabei chegando à conclusão de que ele deveria ser uma coisa bem pessoal minha mesmo, com informações sobre o que faço, quase como um perfil de rede social, só que com mais espaço e possibilidades de diagramação. Nos posts eu posso fazer o diabo que quiser, ou se preferir não fazer nada! Fica a meu critério. A grande questão é que vai ficar disponível para quem quiser ler, comentar, xingar, se posicionar, ou simplesmente ignorar.

Acho que é isso por enquanto. Fiquem à vontade, que eu também ficarei.


Tio, dá um incentivo pra eu fazê cultura?

Só pra mostrar um pouco o que eles dizem

Artigo retirado do Blog Da Lei Rouanet, do Minc

“APENAS 5% DAS COMPANHIAS USAM BENEFÍCIO FISCAL”

Brasil Econômico, por Martha San Juan França, em 07/01/2011

O presidente da Muzy Corp. e do Instituto Vencer, Jorge Muzy, concedeu uma entrevista ao jornal Brasil Econômico nesta sexta-feira (07), onde ele comenta a falta de interesse das empresas em direcionar o imposto de renda para entidades ou projetos na área cultural.

Por que tão poucas empresas se valem das leis de Incentivo?

Primeiro porque a maioria das leis é desconhecida e há um emaranhado delas. Só federais são sete: Lei Rouanet, Lei do audiovisual, Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Fumcad), Lei do Idoso, Vale Cultura, Lei do Incentivo ao Esporte, Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), sem contar as leis estaduais e municipais. E segundo porque a aplicação não é tão simples – elas se canibalizam. Por exemplo, a renúncia fiscal com a Lei do audiovisual é de 3% e com a Lei Rouanet, 4%, mas as duas juntam não se somam. Outro problema é que os departamentos de contabilidade estão focados no objetivo de oferecer o melhor resultado fiscal e esquecem de ver depois se existe possibilidade de aproveitar essa eficiência tributária.

Mesmo sendo boa, a Lei do Incentivo ao Esporte não gerou os resultados pretendidos, e o Brasil está vivendo uma década de oportunidades que está sendo desperdiçada

Qualquer empresa pode aplicar essas leis de Incentivo?

Qualquer empresa que tribute pelo lucro real. Lucro presumido não pode e nossa luta é para mudar essa regra. Outro problema grave é a falta de comunicação. Por exemplo, toda pessoa física que paga imposto de renda tem direito a destinar 6% desse imposto a Projetos Culturais ou esportivos. Mas a porcentagem dos que usam esse benefício é irrisória porque ninguém sabe disso. Se cada pessoa que paga imposto de renda no Brasil destinasse 6% para um Projeto esportivo, teríamos R$ 4 bilhões por ano aplicado ao esporte. Outra de nossas lutas é convencer empresas e empresários a desenvolver programas de informação sobre esse benefício entre os seus funcionários.

Qual o motivo da preferência pela Lei Rouanet?

Porque ela é mais conhecida – tem 17 anos de existência. Além disso é uma lei excelente e vai ficar melhor agora com a nova reforma. A lei atual dá 100%de renúncia fiscal no seu artigo 18 e 30 a 40% no artigo 26, dependendo se o PROJETO for doação ou patrocínio, mas concentra muito as atividades no eixo Rio-São Paulo. A nova lei permite que, quanto maior o Investimento em áreas afastadas dos grandes centros, maior a renúncia fiscal.

Qual o nível dos projetos aprovados?

Os da Cultura em geral são muito bons. Os projetos esportivos, ainda deixam a desejar. Isso porque a Lei do Incentivo ao Esporte tem um defeito gravíssimo: ela não permite que empresas de capital privado e agências de marketing esportivo sejam proponentes.

Leia mais.


Women’s por Santa Catarina

Contemplado pelo Edital UDESC de  estímulo à cultura, o espetáculo Women’s parte em direção a quatro cidades do Estado, uma pequena turnê que prevê também a realização de oficinas no dia seguinte a cada apresentação.

 

Sobre o espetáculo:

Women’s, do argentino Daniel Veronese é uma produção do grupo de teatro (E)xperiência Subterrânea, que desde a sua fundação, em 1995, desenvolve um trabalho centrado em zonas limites, com foco no risco físico e nas fronteiras de interpretação e na experimentação com o espaço cênico.

Na peça, uma faxineira que trabalha em um necrotério dialoga com seus fantasmas enquanto realiza sua tarefa cotidiana, manipulando um cadáver que espera por uma autópsia.

Na peça, o jogo entre as atrizes e a exploração dos limites é a matéria a partir da qual se constrói o espaço de diálogo com o público.

O teatro de Veronese

Com o título original Women’s white long sleeve sport shirts (1996) é um monólogo que apareceu publicado por primeira vez no livro Cu

erpo de prueba (1997).

A dramaturgia do argentino Daniel Veronese trabalha com imagens perturbadoras. Seus personagens sugerem máquinas cujo funcionamento parece responder a uma lógica inexorável que cabe ao espectador tratar de desvendar. Veronese propõe o espetáculo como uma advertência. Todo distúrbio causado pelo teatro cumpriria a função primordial de mobilizar a audiência a partir da oferta de imagens que são sempre algo deslocadas de um eixo de realidade. Os textos operam como estruturas dinâmicas nas quais o ator é impelido a “reescrever” com ações as narrativas das peças antes que representá-las.

Workshop – A Formação do ator pela UDESC – Risco Físico na Cena e a Interpretação por Estados

O workshop/palestra com o grupo (E)xperiência Subterrânea de Florianópolis – SC consiste em uma demonstração de técnicas de preparação corporal, consciência de movimento e quedas cênicas, que culminam na pesquisa que o grupo desenvolve há alguns anos chamada “risco físico na cena“, e também as técnicas de “interpretação por estados“, pesquisa que, juntamente com ÀQIS (Núcleo de pesquisa sobre processos de criação artística), vem desenvolvendo desde 2007 na UDESC, ambas usadas no espetáculo Women’s. Juntamte com a demonstração haverá uma conversa sobre “A formação do ator pela UDESC“.

Ficha técnica

Texto – Daniel Veronese

Atuação – Lara Matos e Ana Luiza Fortes

Produção e técnica- Drica Santos e Dimi Camorlinga

Direção e tradução – André Carreira

Datas e locais das apresentações:

Joinville

Apresentação dia 16, às 20h – Gratuito

Workshop dia 17, às 9:30h, – 20 vagas – Gratuito -

Contato: Sabrina (47) 998792143

Local (apresentação e workshop):

Teatro do Colégio Bom Jesus/IELUSC, Rua princesa Isabel, 438, Centro

São Bento do Sul

Apresentação dia 17, às 20h na Sociedade Bandeirantes – Gratuito

Workshop dia 18, às 9:30h no Auditório da Escola de Música Donaldo Ritzmann, Largo Hugo Fischer, nº 33 - 20 vagas – Gratuito

Contato: Ivana (47)36340297

Lages

Apresentação dia 19, às 20h – Gratuito

Workshop dia 20, às 9:30h, – 20 vagas – Gratuito

Contato: Rudimar (49) 32223936 – rudimar@sesc-sc.com.br

Local (apresentação e workshop):

Teatro do SESC

Laguna

Apresentação dia 21, às 20h – Gratuito

Workshop no dia 22, às 9:30h, – 20 vagas – Gratuito

Contato: Heleine (48) 36440152 - heleine@sesc-sc.com.br

Local (workshop e apresentação):

Centro Cultural Santo Antônio,  Rua Santo Antônio, nº 24, Centro





Quem divulga amigo é!

SAMBA E BAIÃO COM QUARTETO CALUNGA NO VARANDAS!

Eu sempre gostei de dançar misturado, nem só samba, nem só baião. O Quarteto Calunga, que toca nessa Sexta a partir das 21:30 no bar Varandas, faz essa mistura na finesse, com um groove que puxa pro jazz, deixando espaço pra improvisos na mesma pegada.

Com a formação clássica de Baixo (Trovão Rocha), Batera (Martin Bustingorri), Guitarra (Rafael Meksenas) e Voz (Eva Figueiredo – que também manda ver no Clarinete), o Quarteto faz algumas releituras muito interessantes, que não por isso deixam de ser dançáveis.

Vou me acabar dançando na Sexta, e convido todos a participarem!


IX Semana do Jornalismo!

Lançamento da Semana Revista com Sônia Bridi

Qua, 18 de Agosto de 2010 19:22

A terceira edição da Semana Revista, publicação da 9ª Semana do Jornalismo, será lançada na próxima segunda-feira (23) às 19h30, no Auditório do curso de Arquitetura da Universidade Federal de Santa Catarina. O evento terá palestra com a jornalista Sônia Bridi, apresentação do grupo A corda em Si e coquetel de lançamento.

A jornalista irá contar sua trajetória profissional, desde quando estudava na UFSC até as recentes coberturas internacionais para a Rede Globo. Antes da palestra, a dupla A Corda em Si apresentará uma releitura de clássicos da MPB presentes no seu álbum de estreia, que será lançado dia 25 de setembro.

Produzida por alunos do curso, a Semana Revista traz matérias sobre os temas das palestras e mesas de discussão da 9ª Semana do Jornalismo da UFSC, que acontecerá entre os dias 13 e 17 de Setembro. Assuntos como cobertura de situações de risco, investigação de escândalos políticos e solução para a crise do jornalismo impresso são alguns dos enfoques da publicação e da semana acadêmica.

Fonte: http://www.semanadojornalismo.ufsc.br/


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